quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Aurelio -O dentista gago

Adoro pensar nas pessoas, espalhar notícias utilitárias, escrever poesias e conselhos. Na falta da fala correta, acidentada, tornei-me um observador obsessivo. A profissão escolhida teve a intenção de minorar minha gagueira ,ela foi agravada na,na,na adolescência com o reviver do Complexo edípico. Faço análise duas vezes por semana. Nas sessões a gagueira piora bastante, o analista paciente (sic) afirma que transfiro para ele as relações objetais que tive e tenho com meu pai. Meu terapeuta na medida que meu silêncio não se desfaz , desembesta a falar .Desconfio por vezes que isto o agrada.Conheço bem estas coisas de um não falante.

Na outra ponta, enquanto profissional da área bucal aplico um método de tratamento fantástico e simples. NÃO FALO.

Dentistas conseguem um fato cruel demais; abrir a boca das pessoas e ao mesmo tempo emudecerem-nas. O sadismo não para aí, além do sofrimento causado nas obturações, extrações, tratamentos de canal, implantes etc.etc., costumam expressar opiniões das mais variadas, sobre os assuntos em voga. E assim vão: perguntam, e falam e perguntam e falam e perguntam e falam...
As perguntas claramente são feitas para não serem respondidas. Afinal o paciente com a boca presa não consegue se expressar . Pensa mas não se expressa. Tenho uma identidade enorme com pacientes dentários, sei melhor que ninguém a estranha situação de não conseguir emitir ou responder questões quando indagados. Estranhamente vivo a posição de consultado/consulente no meu dia a dia .

Resumindo.

Todo paciente dentário vive momentos de gagueira. Eu vivo permanentemente.

Com o passar do tempo fui aprendendo o quanto as pessoas gostam de falar sem serem interrompidas. Os grupos de ajuda normalmente fornecem os dez minutos para seus participantes. Mas é apenas dez minutos como praxe comum.

Adoro escutar, e minha gagueira criou o método odontológico, já dito, fantástico e simples. ( é ótimo repetir as coisas sem gaguejar _)...

Não tenho palavras para seduzir os clientes para realizarem estranhas intervenções dolorosas no corpo, na alma e principalmente no bolso. Os materiais são caros, importados, todos de primeira qualidade. Escuto por meia hora todas as suas queixas . Mas um assunto puxa outro, começa-se a falar sobre estética bucal e quando noto já falam da barriga, das estrias, dos relacionamentos e por fim da maldita solidão humana.

Neste ponto intervenho, levanto a mão esquerda em sinal do PARE dos guardas de transito, e com a direita os encaminho a sala de choque. Acredito que o desabafo na ante-sala produz um efeito na diminuição das dores causadas pelo motorzinho impertinente. Não conheço explicações neurológicas ou psicológicas para tal fato. Mas isto é o que acontece. A gagueira para meus ganhos materiais se tornou uma ferramenta poderosa. Talvez daí meu insucesso terapêutico.Toda doença tem seu ganho secundário , e o meu se dá na forma de dinheiro.Com este me mantenho razoavelmente bem. Tenho carro do ano, celular do ano, perfume do ano, som do ano, computador do ano, a solidão de anos.

Roberto

Alguns anos antes do "Crash" na lateral do ônibus da Viação Santa Brígida, a situação já degringolava. Quem se perde nas cositas da noite, conhece o roteiro, e o meu particularmente esteve inserido no script.Os abusados coleguinhas do vinho,do uísque ,da vodka,da cerveja e da cachaça é claro, sabem muito bem do que falo.Assim perambulando pela vida tive o dia do CHEGA.Lucia independente financeiramente e atitude firme , trancou a porta ." Cai fora seu safado " foram suas últimas palavras .Gritei azedo, se isto é possível - "Logo logo pede pra voltar ,sua cadela ".-a vizinhança murmurou, luzes piscaram mas não foram páreo para meu orgulho. "Vão se fuder, tudo bunda mole, bunda mole mesmo, só tem corno aqui!"

Numa hora dessas qualquer vizinho que se preze se cala: Os meus se calaram. Pessoal de classe média baixa ,cultura mediana,souberam se comportar entre cochichos.Alguém sussurrou "psiu" educadamente, e nada mais .O prazer que o ato familiar renderia compensou umas horas mal dormidas.O "diz que diz", o apoio sagaz das mulheres,os olhares maliciosos dos maridos.Agora na ausência percebo o quanto Lucia era gostosa.Não deu trela pra vizinhança,disfarçou.Soube depois que nem encurvada ficou.O estado dos olhos em seu belo óculos escuro não foi visto,deixou assim os xeretas na dúvida.Com os olhos velados escondeu o choro noturno ou a alegria pelo sumiço deste desgraçado.Fico com as duas hipóteses.Lucia ora chorou,ora sorriu aliviada.
A rua se apresenta. As avenidas parecem mais escuras e estreitas,rodeio o bairro ,poderia ir para todos bares amados, sempre saia antes da hora do meu desejo,a saideira um pouco adiada ,descia redonda ,a noite encerrava seu ato.
O lar me esperava com a rotineira desaprovação de Lucia. Mas era o meu canto, meu lugar, com filhos, cachorros, banheiro, quarto, travesseiro, sono seguro ao lado da mulher mesmo no descolamento dos corpos. Família, açúcar no café, nem percebemos a presença, mas na ausência o gosto amargo é inaceitável.