segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Aurelio

FIQUEI DE VER




A vida cada dia indo.Andava cabisbaixo,não ria mais,e nem piadas novas mexiam com o humor de Arnaldo.Por vezes afirmava,“fulano isso não vale nada,os chistes antigos eram melhores.Entretanto quando se afastava das pessoas conversando com seus botões, com seus cadarços,com seu isqueiro,com seu cigarro,ele bem sabia que as coisas estavam perdendo “ a graça”.
Poderia enumerar na memória ou no guardanapo nunca dispensado os motivos que o haviam transformado do rapaz radiante no homem extremamente sisudo da Rua Major Diogo. Ultimamente mal cumprimentava o porteiro do prédio,aos moradores mexia a cabeça num gesto vago tentando ser educado ,ao ver o sindico pigarreava ironicamente.Detestava síndicos,nestas horas parecia estar vivo .

Aluguel atrasado,falta de mulher,salário achatado,e vários pormenores irritantes.Inadimplente por precisão necessária os detalhes o retalhavam (telefone , Jornal,gás cortados),conta de luz ainda salva.

Ficar no escuro seria a forca ou a vela.

Da mesma forma que cedo chegava ao Banco deste saía ao entardecer.

QUIETO.

Trabalhava despercebido dos colegas,funcionário funcionava,não era um realce,mas eficiente nas tarefas repetitivas .A profissão lhe caíra bem ao jeito entediado.No mesmo ritmo sufocante da maioria dos Bancários,ele apenas se queixava,sem muito alarde,de certa dor nas costas muito mal localizada.Adaptava-se a tudo que era monótono,agora se vivia os Ctrl,Alt,Del.

Não era saudade,sabia muito bem,mas a mente obsessiva,teimosamente,guardava lembranças da velha Remington,dos carbonos,das borrachas,dos carimbos,e principalmente,da mesa cheia de papéis.

O horário de trabalho ainda era o mesmo,das 9 as l8,duas horas extras,e uma para o almoço no Gervásio.Vinte anos o mesmo tempero,o mesmo cardápio,o mesmo cenário.

Chegava cansado,agradecia a Deus por isso,bolinava os calos,sentado na poltrona de veludo vermelho,saboreava o café solúvel rapidamente preparado no velho microondas, herança de sua mãe.
Os olhos na TV,como o personagem de “Muito alem do Jardim(Peter Sellers)",Arnaldo apertava aleatoriamente, o controle remoto.Mudava de canais dezenas de vezes por hora.Tirava o som e ficava paralisado nas imagens.Fitava sem mexer um nervo na face, elas apenas refletiam a sua falta de reflexão.

Aos domingos, almoçava com a irmã ,as l7 horas visitava Dorotéia.Pagava pouco,era cliente fiel desde que sisudo.Religiosamente,suas visitas não duravam mais que l hora uma hora e meia.


Por vezes,sentia e chorava poucas lágrimas.Arnaldo culpava a solidão.”Aurelio to sofrendo de insônia,conhece alguma erva natural”?


Fiquei de ver ...

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